terça-feira, fevereiro 18, 2003
DE LEIRE A PANINÁ: COMO ENXERGAR O MUNDO DE UMA MANEIRA DIFERENTE
("QUANDO O SÁBIO APONTA A LUA, O TOLO OLHA PARA O DEDO", dito popular de algum lugar que eu deconheço)
a pessoa mais importante que eu vi no fórum não foi o Chomsky, nem o Stédile, nem o Sebastião Salgado, nem nenhum outro notável. foi a Leire (gracinha).
a Leire era minha vizinha quando eu morava com os meus pais, num condomínio classe média-alta na Granja Viana. sempre na dela, com carinha aérea, a Leire tinha algo que me intrigava, e eu nunca cheguei a descobrir o que era. até que um dia a ela sumiu. perguntei para alguém o que se passara com ela e a resposta foi: “ah, a Leire se mudou para uma comunidade aí, x-y-z, sei lá”. normal.
andando pelas vielas do acampamento intercontinental da juventude, ouvi falar de uma tal comunidade x-y-z que estava por lá expondo seu trabalho. lembrei da Leire na hora, e lá fomos eu e a patota conhecer a comunidade.
ao lado de um ônibus velho ficava a tenda de lona com os tapetes no chão e alguns banquinhos ao redor. na mesinha no centro, chá orgânico e bolachas integrais. “Leire?”. solícita, ela se virou, não me reconheceu de cara. ao vê-la, tomei um quase susto. ela sorriu, os dentes estavam um pouco sujos, maltratados. seu rosto ainda era bonito, entretanto, ou mais bonito, talvez. aquelas coisas da Leire que eu sempre quis e nunca consegui entender.
depois que eu expliquei quem era, ela abriu um sorriso mais aliviado (e só depois eu entendi o motivo do alívio), “ah, agora estou te reconhecendo”. quando percebi, o resto da patota, que não tinha participado destes minutos de reencontro, já havia sido (muito bem) recebido pelos companheiros de Leire. à vontade nos tapetes, eles ouviam e perguntavam sobre a vida na tal comunidade.
a atmosfera lá era incrivelmente positiva, e isso me fez entender quase que instintivamente por que Leire largara sua vida classe média-alta para morar em uma comunidade, dividindo seus bens, seu trabalho, sua vida. é o amor. lá, o amor era o principal bem de cada um, e o que todos compartilhavam sem restrições.
a tal comunidade, em verdade, possui uma diretriz ideológico-religiosa com a qual eu poderia concordar ou não, mas firular sobre isso seria olhar para o dedo, não para a lua. o principal é o amor, o importante é amar. entendendo isso ficou óbvio o motivo pelo qual Leire abandonou todos os seu bens materiais, o conforto de uma casa segura, a possibilidade de um curso pré-vestibular e talvez até uma faculdade particular.
hoje, Leire se chama Paniná e dá aula de português, história geral e geografia para as crianças da comunidade. mas, acima de tudo, ela ama incondicionalmente e é amada da mesma forma. ver isso foi o primeiro passo para que eu conseguisse vislumbrar a idéia de um mundo melhor. obrigada, Paniná.
("QUANDO O SÁBIO APONTA A LUA, O TOLO OLHA PARA O DEDO", dito popular de algum lugar que eu deconheço)
a pessoa mais importante que eu vi no fórum não foi o Chomsky, nem o Stédile, nem o Sebastião Salgado, nem nenhum outro notável. foi a Leire (gracinha).
a Leire era minha vizinha quando eu morava com os meus pais, num condomínio classe média-alta na Granja Viana. sempre na dela, com carinha aérea, a Leire tinha algo que me intrigava, e eu nunca cheguei a descobrir o que era. até que um dia a ela sumiu. perguntei para alguém o que se passara com ela e a resposta foi: “ah, a Leire se mudou para uma comunidade aí, x-y-z, sei lá”. normal.
andando pelas vielas do acampamento intercontinental da juventude, ouvi falar de uma tal comunidade x-y-z que estava por lá expondo seu trabalho. lembrei da Leire na hora, e lá fomos eu e a patota conhecer a comunidade.
ao lado de um ônibus velho ficava a tenda de lona com os tapetes no chão e alguns banquinhos ao redor. na mesinha no centro, chá orgânico e bolachas integrais. “Leire?”. solícita, ela se virou, não me reconheceu de cara. ao vê-la, tomei um quase susto. ela sorriu, os dentes estavam um pouco sujos, maltratados. seu rosto ainda era bonito, entretanto, ou mais bonito, talvez. aquelas coisas da Leire que eu sempre quis e nunca consegui entender.
depois que eu expliquei quem era, ela abriu um sorriso mais aliviado (e só depois eu entendi o motivo do alívio), “ah, agora estou te reconhecendo”. quando percebi, o resto da patota, que não tinha participado destes minutos de reencontro, já havia sido (muito bem) recebido pelos companheiros de Leire. à vontade nos tapetes, eles ouviam e perguntavam sobre a vida na tal comunidade.
a atmosfera lá era incrivelmente positiva, e isso me fez entender quase que instintivamente por que Leire largara sua vida classe média-alta para morar em uma comunidade, dividindo seus bens, seu trabalho, sua vida. é o amor. lá, o amor era o principal bem de cada um, e o que todos compartilhavam sem restrições.
a tal comunidade, em verdade, possui uma diretriz ideológico-religiosa com a qual eu poderia concordar ou não, mas firular sobre isso seria olhar para o dedo, não para a lua. o principal é o amor, o importante é amar. entendendo isso ficou óbvio o motivo pelo qual Leire abandonou todos os seu bens materiais, o conforto de uma casa segura, a possibilidade de um curso pré-vestibular e talvez até uma faculdade particular.
hoje, Leire se chama Paniná e dá aula de português, história geral e geografia para as crianças da comunidade. mas, acima de tudo, ela ama incondicionalmente e é amada da mesma forma. ver isso foi o primeiro passo para que eu conseguisse vislumbrar a idéia de um mundo melhor. obrigada, Paniná.
VAMOS FALAR SOBRE O FSM
às vezes eu tenho medo de deixar para trás todas as coisas boas que aprendi e vivi no forum social mundial. tenho medo de esquecer que um outro mundo é possivel e voltar a viver na minha pequena bolha. tenho medo de voltar a fazer de minha maior meta a luta por organizar a minha pequena bolha, egoísta. quero para sempre lembrar o quanto eu -- cada um, na verdade -- posso ser importante para o mundo.
às vezes eu tenho medo de deixar para trás todas as coisas boas que aprendi e vivi no forum social mundial. tenho medo de esquecer que um outro mundo é possivel e voltar a viver na minha pequena bolha. tenho medo de voltar a fazer de minha maior meta a luta por organizar a minha pequena bolha, egoísta. quero para sempre lembrar o quanto eu -- cada um, na verdade -- posso ser importante para o mundo.
domingo, fevereiro 16, 2003
os amigos são defitivamente a coisa mais importante que eu tenho. cada abraço que eu deixei antes de ir, cada abraço que eu recebi ao chegar. não tenho nada mais valioso do que isso. espero saber cativar todas as minhas amizades, espero não errar para com os meus amigos, rezo para que eles perdoem minhas falhas.
ps: um pouquinho de paciência para agüentar minha mãe também não seria nada mal, juro.
ps: um pouquinho de paciência para agüentar minha mãe também não seria nada mal, juro.
sexta-feira, fevereiro 14, 2003
quinta-feira, fevereiro 13, 2003
BABILÔNIA
3 semanas de viagem mudaram a minha cabeça de uma maneira incrível. tá ainda meio difícil de entender, voltar para são paulo foi um choque (e olha que faz só 180 minutos que eu estou aqui), e o curioso é que isso nunca tinha me acontecido antes. voltar para sampa sempre fora um alívio. pergunta pra Carol, o que foi que eu falei quando voltei da bahia? "eu amo a av paulista", só isso. e de repente isso não tem mais graça. eu quero o mar, o nascer do sol no farol, o pôr do sol nas dunas, as noites no sobrenatural, as pessoas, tranqüilas. é por isso que se vende tanto prozac por aqui.
3 semanas de viagem mudaram a minha cabeça de uma maneira incrível. tá ainda meio difícil de entender, voltar para são paulo foi um choque (e olha que faz só 180 minutos que eu estou aqui), e o curioso é que isso nunca tinha me acontecido antes. voltar para sampa sempre fora um alívio. pergunta pra Carol, o que foi que eu falei quando voltei da bahia? "eu amo a av paulista", só isso. e de repente isso não tem mais graça. eu quero o mar, o nascer do sol no farol, o pôr do sol nas dunas, as noites no sobrenatural, as pessoas, tranqüilas. é por isso que se vende tanto prozac por aqui.
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